
Confesso que estou encantado com a “última flor do Lácio, inculta e bela”*, que é a habilidade do brasileiro de inventar palavras e expressões. Pesquisando um termo, para ter certeza de que o que eu estava escrevendo seria bem interpretado pelo destinatário – muita gente deveria ter este hábito também – me surpreendi com a incrível capacidade que temos de destroçar o significado centenário de algumas palavras.
Você sabe, por exemplo, quando surgiu a expressão “Cair a Ficha”. Ela surgiu depois do orelhão, é claro! Antes disso não havia ficha nenhuma para cair e a pessoa “se ligar”. Era uma expressão útil e até bonitinha, mas vem sendo substituída por outras, já que nossos poetas populares não descansam nunca. Agora, a palavra da moda é “bizarro”.
Tudo o que acontece é bizarro. O time está bizarro, a festa foi bizarra e outras coisas são verdadeiras bizarrices. Pelo que ouvimos dizerem por aí, bizarro está relacionado ao sentido de estranho, esquisito. E isso sim é, no mínimo, bizarro. Segundo o tio Houaiss, a palavra “bizarro” é usada na nossa língua desde 1595. Porém, os mais de quatro séculos do termo não foram suficientes para que respeitássemos esta simpática senhora no modismo deste começo de terceiro milênio.
Acredite, bizarro leitor, que esta é a definição para o termo “Bizarro”: que se destaca pela boa aparência ou expressão pessoal; bem-apessoado; que tem bom porte ou boa postura corporal; garboso; elegante nos gestos e nos trajes; que se faz notar pelo refinamento das maneiras ou pela pureza do caráter; primoroso no comportamento; gentil; dotado de magnanimidade; nobre, generoso, liberal; que demonstra seu valor pessoal em grandes feitos; dotado de valentia; brioso. Só lá no finalzinho, o Houaiss dá o braço a torcer, sutilmente: “que é esquisito, estranho, excêntrico”.
Se você for chamado de bizarro (ou bizarra), segure os nervos e não parta para a ignorância, pergunte primeiro em que sentido. Não adianta ficar logo enfezado. Pode ser um elogio. E, por falar em “enfezado”, sabemos que uma pessoa enfezada está irritada, simplesmente porque está cheia de fezes... É isso aí! A origem é esta! E me desculpe a escatologia... Que aliás, escatologia, não é bem isso, não.
O tio Houaiss nos alerta que a escatologia é “a doutrina das coisas que devem acontecer no fim dos tempos, no fim do mundo; doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico”. Portanto, “enfezado” não é “escatológico”, muito menos “bizarro”.
Enfim, para aqueles que entenderam o título deste post como sendo algo: "a grande merda da estranha língua portuguesa", eu explico que, ao contrário, eu só quis dizer "O apocalipse de nosso belíssimo idioma". =)
Só não diga “iÔga” na minha frente... É “iÓga”... Quem pratica é um “iÓgue" e não um “iÔgue”...
* Momento Cult: A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que viveu no período de 1865 a 1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela.
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