Talvez hoje este colunista/blogueiro, através deste texto, esteja fugindo um pouco dos temas centrais deste blog, que é, sem dúvidas, discutir o nosso cotidiano, com espírito crítico, ironia e bom humor. E, sem dúvidas, particularmente nesta coluna, tais objetivos se aprofundam ainda mais.
Porém, a questão da não utilização do transporte ferroviário de forma adequada em nosso país, sobretudo no interior do Estado de São Paulo, mais precisamente na Alta Paulista (Adamantina), sede deste (quase) periódico, é algo que me atormenta.
Ainda me recordo, nos meus nem tão distantes tempos de infância, que o trem ainda mantinha certa influência na vida das pessoas, seja as acordando as 06 da manhã ou meia-noite, com seus intermitentes apitos, seja em sua chegada às pequenas estações, mal conservadas, registros materiais de um passado glorioso da Era do Café, seja, até mesmo, como uma viável opção para aqueles que tentavam, a todo custo, uma passagem apenas de ida para o além, deitando em seus trilhos (tudo tem seu lado dark!)
Comboio trafegando em AdamantinaMe lembro que, desde minhas primeiras aulas de história de Adamantina, ainda na terceira série do ensino fundamental, por meio dos ensinamentos da querida “Tia” Darci, pude observar o quão importante foi a chegada da estrada de ferro a nossa região. Foi um acontecimento memorável, de grande importância política. Uma verdadeira guerra vencida pelos adamantinenses.
E assim a velha Maria-Fumaça ia vencendo os longos quilômetros que separavam a distante “Alta Paulista” dos maiores centros urbanos da época, levando até eles nosso ouro negro (café)! E voltava, trazendo em seus limpa trilhos um tempo de grande pujança econômica, que infelizmente, hoje, se mostra absolutamente utópico, quando nos deparamos completamente abandonados pelo Estado (governos Estadual e Federal), a não ser por algumas dezenas de presídios, estrategicamente nos dados de presente...

A velha Maria Fumaça representava grande progresso ao interior de São Paulo
Porém, a influência da ferrovia vai além de um simples devaneio histórico ou de um instrumento largamente utilizado durante a expansão cafeeira. Ela dos deu uma identidade como região, com características e cultura própria. Como? Ora, a denominação Alta Paulista vem da forma como a ferrovia que corta nossa região era denominada (paulista)...como a Sorocabana (Presidente Prudente), Mogiana, Araraquarense, etc.
Pos bem. Imagino que a esta altura do texto você deve estar ai pensando....”Ok. A ferrovia foi importante na construção histórica do interior de São Paulo e está associada a um grande boom desenvolvimentista. Agora, será que eu li essa p@%ra até agora apenas pra ver historinha?”
Não meu caro leitor. Não perderia meu tempo (nem gastaria o seu) apenas com uma tentativa poética de retratar um período rico de nossa história....aqui não há espaço para saudosismo barato! É lógico que, nas linhas a seguir, estarei colocando o dedo em mais uma grande ferida....duvida?
Ora, há algo mais sem noção, mais maluco que, mesmo possuindo uma malha ferroviária totalmente estruturada e instalada, se gaste milhões e milhões de reais ignorando tal infra-estrutura, em prol da quase que exclusiva utilização dos caminhões como meio de transporte de cargas?
Sempre ouvi falar que louco é aquele que rasga dinheiro..então, voilà! (ou vualá, chârãm, ou qualquer outra interjeição !) Olha nossa querida LOUCURA totalmente fincada neste assunto...não sei se na cabeça de nossos governantes, dos empresários, ou de ambos!
Sei que mais uma vez uma pergunta vem a sua já tão perturbada mente: “Ok seu mala...tudo bem, por este raciocínio a loucura ta presente mesmo. Mas, onde o cotidiano entra nessa história?”
Vamos lá.
Não sei se muitos de vocês enfrentam nossas estradas com grande freqüência. Se não, posso relatar o meu exemplo: percorro uma média de 40 km diários, praticamente 06 vezes durante a semana pela Rodovia SP-294 (Comandante João Ribeiro de Barros)...conhecida carinhosamente por seus conterrâneos como “corredor da fome”. Sem dúvida um trecho bem pequeno.
Porém, com grande freqüência, tenho, junto a meu pequeno carro popular, a indesejável companhia de seus “irmãos” (muito, mas muito mesmo!) grandes: são caminhões enormes, a maioria os famosos bi-trens, levando pra lá e pra cá um sem número de produtos...além dos “adorados” canavieiros (Facilmente se cruza com 10, 15 carretas em apenas 8 km.) E assim, em uma rodovia com raros pontos de faixa adicional, recentemente recuperada pelo governo de São Paulo (44 km de extensão nos custaram aproximadamente R$ 43.000.000,00, segundo o site Governo ), somos espremidos a todo canto por gigantes do asfalto, respirando aquele adorável odor de diesel queimado, e nos sujeitando, muitas vezes, dependo da situação do relevo, a trafegar a absurdos 30, 40 km/h, colocando em risco a vida de muitos motoristas em razão das ultrapassagens forçadas.

Estação Ferroviária de Adamantina, ainda em funcionamento (acima) e, posteriormente, após sua desativação, totalmente destruída por incêndio até hoje não esclarecido (a baixo)
E, infelizmente, sei que esta situação não é privilégio nosso.
Pois bem! Sei que vocês ficam tão putos quanto eu quando ficam presos atrás de um caminhão barulhento, soltando aquela fumaça preta no seu rosto, andando naquela “super” velocidade de 40 km/h e você não tem como ultrapassá-lo.
E para piorar essa situação, apenas um dado: cada vagão de trem carrega o equivalente a 03 caminhões com capacidade de 30 a 35 toneladas, ou dois bi-trens (57 toneladas segundo regulamenta o CONTRAN). E o mais legal de tudo isso: Locomotivas mais modernas, em média, são capazes de transportar até 80 (eu disse OITENTA!!) vagões; ou seja, cada comboio transporta o equivalente a 160 bi-trens!!! Mesmo sem ter qualquer conhecimento técnico sobre caminhões ou trens, fica mais do que óbvio que o transporte ferroviário é muito mais barato.
Sinceramente, fica impossível compreender: a linha férrea está lá, devidamente fincada ao lado da rodovia, totalmente abandonada, enquanto os “brutos” vão se amontoando.
Além da questão da carga, importante lembrarmos do transporte de passageiros. É um gigantesco contra-senso: residindo em uma cidade cortada pela ferrovia, tive minha primeira experiência sobre os trilhos no Metrô, em São Paulo. E, para piorar a situação, é só observar o valor de uma passagem de ônibus até a capital: não sai por menos de salgados(!!) R$ 100,00.
Então, porque nossos governantes insistem em estimular um modelo de transporte caro e ineficiente, que aumenta os custos dos produtos que nos são fornecidos e, paralelamente, os tornam bem menos competitivos no mercado externo? Com certeza, nossos “jeniais” (com “j” mesmo, se assemelhando ao nome de um singelo animal quadrúpede sinônimo de falta de inteligência) representantes políticos já pararam para pensar a respeito deste assunto. Mas, esta questão envolve muitos interesses em jogo.
Alguém ai já parou para pensar quanto custa um conjunto de cavalo-mecânico e bi-trem zero quilômetro? Ou até mesmo um singelo pneu deste equipamento? Ou ainda o quanto se gasta com combustível? Ou mesmo a chamada “indústria” dos pedágios, os quais se proliferam mais que erva daninha nas rodovias brasileiras, entregues a iniciativa privada? È um mercado que movimenta muitos milhões de dólares por ano, e possui um lobby poderoso nos meios políticos.
Parar jogar aquela “pazinha” de cal sobre este tema, há ainda a questão da recuperação de rodovias, que, obviamente, não resistem ao tráfego intenso de caminhões e carretas que, quase sempre não respeitam os limites de peso estabelecidos em lei.
Vejamos a quantidade de peso Bruto máximo que cada tipo de caminhão pode carregar:
Toco - 16.000 kg
Truck - 23.000 kg
Carreta 2 eixos - 33.000 kg
Carreta Baú - 41.500 kg
Carreta 3 eixos - 41.500 kg
Carreta Cavalo Truckado - 45.000 kg
Carreta Cavalo Truckado Baú - 45.000 kg
Bi-trem(Treminhão) - 7 eixos - 57.000 kg
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FONTE: Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN
No exemplo que eu citei, a recuperação de cada quilômetro asfalto custou aos cofres públicos à bagatela de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais!), isso se tais valores não tiverem sido reajustados. Será que a recuperação da mesma distância de uma ferrovia custaria tal valor?
E, assim, as grandes empreiteiras do Brasil nadam as braçadas, colaborando com a “melhoria dos serviços públicos” (que fatalmente são privatizados!). Só para citar um exemplo: A empreiteira Camargo Corrêa, responsável pela recuperação da SP-294 no trecho entre as cidades de Adamantina e Osvaldo Cruz foi a mesma que realizou, na década de 1950, a expansão dos trilhos da extinta Companhia Paulista de Estradas de Ferro, entre as cidades de Tupã e Adamantina.
O pior é essa questão não se resume apenas a questão financeira e todas suas possibilidades. Obras desta magnitude atraem a atenção do cidadão, e acabam por representar uma oportunidade de ouro para nossos ilustres representantes abocanharem alguns milhares de votos, preciosíssimos para a conquista de novos mandatos. E somos obrigados, ainda, a ver o Governo Federal a projetar um “Trem-Bala” entre as cidades do Rio de Janeiro em Campinas, visando a Copa-2014, orçado em, apenas R$ 34.000.000.000,00 (TRINTA E QUATRO BILHÕES DE REAIS!!!!)
E assim, meus caros, nosso dinheiro vai sendo despejado ralo afora. Nossas ferrovias foram entregues a iniciativa privada, que, sem dó nem piedade, a relegou, em sua grande maioria, ao mais absoluto esquecimento, sob o argumento de falta de demanda. E nossas estradas são deterioradas com grande velocidade...causam inúmeros acidentes....são reformadas, se transformam em barganha política e, adivinhe....privatizadas! Pagamos pela reforma e colaboramos com os lucros estratosféricos das concessionárias!
Qualquer país que busque, verdadeiramente, um efetivo desenvolvimento econômico, tem no transporte ferroviário um importante aliado. Vejam os EUA, onde 50% do total de cargas é transportado via férrea. No Brasil, esse número mal chega a 13%.
Quem nunca ouviu falar do belíssimo “Expresso do Oriente”, retratado em vários filmes e livros? Na Europa, facilmente se embarca em um trem em Portugal e se chega até a longínqua e inóspita Sibéria, na Rússia.

O belíssimo Expresso do Oriente, em plena viagem pela Europa.
Enquanto não acordarmos deste sono profundo, que cega nossos olhos diante de uma loucura tão gritante e absurda, seremos cada vez mais explorados por um Estado sanguessuga, que, além de nos impor uma carga tributária insana, nos faz pagar ainda mais pelo custo de seus conchavos políticos e jogos de interesses.
Em outras palavras: que esse verdadeiro “Trem da Alegria” deixe de circular, o mais rápido possível pelos gélidos corredores do Congresso, abrindo espaço para que as velhas locomotivas possam, tal qual como antes, rasgar este solo brasileiro transportando nossas riquezas e interligando nosso povo.
Eita saudade do velho trenzinho caipira!

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Referências:
www.estacoesferroviarias.com.br
www.folha.uol.com.br
www.objetivo.com.br

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